Empresas precisam conhecer a realidade das mulheres trabalhadoras para evitar que elas adoeçam
No Dia internacional da Mulher, especialista da ABQV aponta que organizações precisam ampliar o olhar para os fatores que interferem na saúde e no bem-estar das trabalhadoras
Com o passar dos anos e uma série de transformações na sociedade, algumas prioridades se adaptaram para as mulheres. Se antes, elas pensavam e/ou eram limitadas a apenas constituir uma família e serem mães, hoje firmar-se profissionalmente e conquistar a independência financeira também estão entre seus sonhos. Porém, assim como em um passado não tão distante, as mulheres ainda precisam enfrentar batalhas, como a tripla jornada (trabalhar, cuidar da família e de si), lidar com desigualdade de cargos e salários, garantia de seus direitos e manter a saúde física e mental.
A assistente social com MBA em Gestão de Pessoas e Negócios, Grácia Fragalá, com mais de 15 anos atuando como responsável pelas áreas de Saúde Corporativa, Segurança no Trabalho, Saúde Ocupacional, programas de Diversidade e Inclusão em empresas de grande porte e membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), explica haver importantes diferenças entre o modo como se dá a inserção de homens e mulheres no mundo do trabalho, e que isso pode refletir sobre as formas de adoecimento da população feminina economicamente ativa.
“As mulheres estão predominantemente inseridas em atividades de cuidados domésticos e atividades informais. No mercado formal, ocupam as posições com menor remuneração e são a maioria entre os desempregados, contribuindo para uma maior vulnerabilidade. As dificuldades encontradas por elas estão relacionadas, entre outros fatores, às demandas desiguais quanto às responsabilidades maternas e domésticas, impactando no tipo de trabalho disponível para essa população”, revela Grácia.
Ela ressalta que devido ao acúmulo de funções maternas, domésticas e do trabalho, a mulher fica mais suscetível a relações precarizadas de trabalho, que reduzem os direitos trabalhistas e dificultam a estabilidade profissional. Mesmo quando em funções iguais e com o mesmo nível de escolaridade, o salário das trabalhadoras é menor que o recebido pelos homens. No Brasil, a situação é ainda mais graves quando se refere às mulheres negras. Esta diferença salarial também ocorre ao nível mundial, como aponta o Fórum Econômico Mundial e outros organismos internacionais.
O Boletim Epidemiológico de maio/2020, da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, traz informações sobre o perfil epidemiológico da mulher trabalhadora no Brasil no período de 2010 a 2019 e aponta que das 651.154 notificações de doenças e agravos relacionados ao trabalho (DART) registradas entre as trabalhadoras:
- 62,4% foram acidentes do trabalho por exposição a materiais biológicos;
- 25,8% acidentes do trabalho; e
- 6,5% doenças musculoesqueléticas.
Nesse mesmo período, houve também aumento de:
- 4.680% nas situações de câncer relacionado ao trabalho;
- 523,7% de aumento nos transtornos mentais; e
- 216% nas intoxicações exógenas relacionadas ao trabalho.
Piora com a pandemia
Com a pandemia de Covid-19, segundo a conselheira da ABQV, houve um aumento dos desafios para as mulheres, com reflexos para a saúde e bem-estar. Informação evidenciada pela pesquisa global da empresa de tecnologia médica Hologic, em parceria com a Gallup, para avaliar até que ponto as necessidades de saúde das mulheres estavam sendo atendidas em cinco categorias: saúde geral, cuidados preventivos, saúde mental, segurança e necessidades básicas, como alimentação e abrigo, que mostrou que a pontuação geral do Índice Global de Saúde da Mulher em 2021 foi de apenas 53 em 100 pontos, um a menos do que em 2020.
Revelou ainda que as mulheres estavam mais estressadas, preocupadas, tristes e irritadas em 2021 do que em qualquer outro momento da última décadas; e 37% mais propensas do que os homens a dizer que não tinham dinheiro suficiente para comprar comida, 3% a mais do que o registrado no ano anterior.
Desafios no mercado de trabalho
Tudo isso mostra que, para Grácia, atualmente ainda são muitos os desafios para as mulheres se manterem com saúde no mercado de trabalho, e que ainda é preciso superar barreiras no que se refere:
- aos papéis sociais desiguais com maior exigência para as mulheres, acarretando duplas ou triplas jornadas de trabalho;
- às questões relacionadas aos processos de trabalho, com longas jornadas, escassez de recursos, falta de autonomia para tomada de decisão;
- à cultura organizacional condescendente com discriminação e preconceitos e, por que não dizer, situações de assédio – moral ou sexual;
- ao medo de demissão pós-retorno de licença maternidade, entre outros desafios que impactam a saúde e bem-estar das mulheres de modo diferente.
“Isso exige das equipes de RH, de Saúde e Bem-estar uma atenção especial para as questões de gênero, raça e etnia, origem social entre outras, na perspectiva da dimensão social do ESG (boas práticas em governança ambiental, social e corporativa)”, explica a conselheira da ABQV.
Ela afirma ser necessário que as organizações ampliem o olhar para fatores que interferem na manutenção da saúde e bem-estar das trabalhadoras, e favorecem seus adoecimento, o que nem sempre são considerados ao se desenvolver programas de qualidade de vida.
Também destaca que precisam ser consideradas as novas modalidades de trabalho (remoto, híbrido e “anywhere office”) e suas consequências: novos horários, regimes flexíveis que rompem as fronteiras entre o trabalho, o lazer e outras atividades; a economia informal, com trabalhadores sem rendimentos regulares e pouca ou nenhuma proteção social, econômica ou legal, e os reflexos para a saúde física e emocional.
“É importante que as empresas conheçam essa realidade, trabalhem com dados desagregados por gênero, raça, faixa etária e de renda, para entender as necessidades e oportunidades de atender especificamente as populações internas em suas especificidades. As equipes de saúde e bem-estar têm uma grande oportunidade de gerar valor para o negócio para as pessoas e para a sociedade, atuando de modo integrado, otimizando recursos e reunindo todos os atores, valorizando o momento em que o tema ESG ganha espaço nas agendas das organizações”, conclui Grácia.
Sobre a ABQV
A Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) é uma organização sem fins lucrativos, fundado em 1995, visando estimular ações e programas de qualidade de vida em ambientes corporativos, bem como desenvolver parcerias e convênios com importantes entidades da sociedade brasileira. Para atingir esta meta, oferece subsídios atualizados e relevantes a profissionais que desejam ampliar seus conhecimentos na área e atuar como multiplicadores de uma rotina que alie harmoniosamente trabalho e bem-estar.
Entre os seus principais objetivos estão: promover a integração e o desenvolvimento de profissionais multidisciplinares; influenciar nos processos de transformações sociais e organizacionais em qualidade de vida; fomentar parcerias com outras entidades nacionais e internacionais, inclusive no âmbito governamental; desenvolver estudos, pesquisas balizadoras na área de qualidade de vida; promover encontros, seminários para reflexão e discussão de assuntos relacionados à qualidade de vida; divulgar informações de diferentes naturezas pertinentes à área de qualidade de vida, mostrando tendências, novidades, novos conceitos e práticas de mercado.



