Para quem está viajando a bordo de uma aeronave, algumas colisões com aves podem passar completamente despercebidas. Afinal, na maioria dos casos, o voo prossegue normalmente e os únicos vestígios aparentes são pequenas marcas na fuselagem ou no para-brisa. O que poucas pessoas imaginam é que um impacto aparentemente simples pode gerar danos internos capazes de comprometer a integridade de componentes estruturais do avião, um problema mais comum do que se imagina.
Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) mostram que o Brasil registrou 5.184 colisões entre aeronaves e aves entre 2022 e 2024 – média de uma ocorrência a cada cinco horas. O cenário segue preocupante: somente no primeiro semestre de 2025 foram contabilizados mais de 1.100 casos, um crescimento de 32% em relação ao mesmo período do ano anterior. Cerca de 80% desses eventos ocorrem justamente durante a decolagem e a aproximação para pouso, fases mais críticas da operação aérea.
Embora, na maioria das vezes, esses eventos não provoquem consequências imediatas para a operação, eles exigem protocolos rigorosos de inspeção técnica. Isso porque a gravidade de um impacto não está necessariamente relacionada ao tamanho da ave ou ao aspecto visual do dano, a explicação está na física. Mesmo um pássaro com poucos gramas pode atingir uma aeronave a centenas de quilômetros por hora, produzindo uma quantidade de energia suficiente para provocar deformações localizadas, delaminações em materiais compósitos, danos em bordos de ataque, para-brisas, radomes e até componentes dos motores. Impactos dessa natureza ainda podem alterar a distribuição de tensões em determinados componentes, favorecendo o surgimento de microtrincas e acelerando processos de fadiga ao longo dos ciclos de operação da aeronave.
Segundo Glaysson Henrique da Rocha Cruz, engenheiro de Produção, especialista em manutenção aeronáutica e integridade estrutural de aeronaves, inspetor de Controle e Qualidade FAA A&P, certificado em Ensaios Não Destrutivos (NDT) Nível II e conformidade regulatória FAA/ANAC, o maior risco está justamente nos danos que não podem ser vistos a olho nu. “O erro mais comum é avaliar a gravidade apenas pelo tamanho da ave ou pela marca deixada na aeronave. A severidade não depende apenas do tamanho da ave. A velocidade da aeronave, o ângulo do impacto, a massa do animal e a área atingida influenciam diretamente a energia transferida à estrutura. Em componentes metálicos, o impacto pode gerar deformações e pequenas trincas próximas a fixadores ou regiões de concentração de tensão. Em estruturas fabricadas em materiais compósitos, a superfície pode aparentar poucos danos, enquanto camadas internas apresentam delaminação ou perda de aderência. Um pequeno amassado pode esconder deformações internas, perda de resistência do material ou o início de uma trinca que só será identificada por meio de uma inspeção técnica especializada”, explica.
Toda colisão com aves deve ser avaliada conforme os procedimentos estabelecidos no Aircraft Maintenance Manual, Structural Repair Manual e NDT Manual aplicáveis à aeronave. Dependendo da área atingida, podem ser necessários ensaios por ultrassom, correntes parasitas, termografia, inspeção por tap test ou boroscopia. Nos motores, por exemplo, devem ser verificadas as fan blades, o spinner, a entrada de ar, os painéis acústicos e os estágios internos quanto a deformações, trincas, perda de material e evidências de ingestão.
Glaysson também ressalta que devem ser inspecionados o radome, o radar meteorológico, o para-brisa, os bordos de ataque, as superfícies de comando e sensores externos, como tubos de Pitot e indicadores de ângulo de ataque. “As colisões com aves raramente resultam em emergências graves, porque a aviação trabalha com elevados padrões de projeto, prevenção, manutenção e inspeção. O objetivo é impedir que um dano inicialmente pequeno evolua por fadiga, vibração, pressurização ou exposição ambiental. A manutenção aeronáutica não se limita a reparar aquilo que está visível, ela busca identificar precocemente qualquer alteração que possa comprometer a resistência estrutural, o desempenho do sistema ou a vida útil do componente”, afirma.
O especialista ainda explica que tecnologias como ultrassom, líquido penetrante, correntes parasitas e radiografia permitem avaliar a integridade interna dos componentes sem a necessidade de desmontá-los ou causar qualquer dano adicional. “A inspeção visual é apenas a primeira etapa, pois ela identifica somente os danos evidentes, sem conseguir revelar alterações internas do material. Por isso, toda colisão com aves deve seguir os procedimentos previstos pelos fabricantes e pelas autoridades aeronáuticas, garantindo que a aeronave retorne à operação em condições totalmente seguras”, conclui Glaysson.
Alguns exemplos de colisão com pássaros:

Quando houver confirmação ou suspeita de ingestão de ave pelo motor, a avaliação não deve se limitar à entrada de ar e às fan blades. Conforme os procedimentos do fabricante, poderá ser necessária uma inspeção boroscópica completa dos compressores, câmara de combustão e turbinas. O objetivo é identificar trincas, deformações, cortes, perda de material, danos aos revestimentos e resíduos orgânicos. Os parâmetros de vibração, temperatura e rotação também devem ser analisados. Os resultados determinarão se o motor pode retornar ao serviço, necessita de inspeções adicionais ou deve ser removido para reparo.

Um impacto severo de ave no bordo de ataque do estabilizador horizontal, com ruptura do revestimento, deformação e exposição da estrutura interna. A avaliação deve abranger não apenas a área visivelmente danificada, mas também regiões adjacentes, incluindo nervuras, longarinas, fixadores e pontos de união com a estrutura. Inspeções visuais e ensaios não destrutivos devem verificar possíveis trincas, deformações permanentes, delaminações e danos ocultos. Após a remoção dos resíduos, os danos devem ser dimensionados e comparados aos limites do fabricante. O reparo ou a substituição dos componentes afetados deve seguir rigorosamente o SRM e os demais manuais aplicáveis.

A imagem mostra danos severos no nose radome, com ruptura extensa do material composto e comprometimento significativo de sua integridade estrutural. Além da substituição do radome, é indispensável realizar uma inspeção detalhada do Forward Pressure Bulkhead, uma das principais estruturas localizadas nessa região, bem como de seus pontos de fixação e elementos adjacentes. Também devem ser avaliados o radar meteorológico, antena, suportes, cablagens, conectores e demais componentes instalados atrás do radome. A aeronave somente poderá retornar ao serviço após a execução dos reparos e de todas as inspeções previstas nos manuais do fabricante.


