Brasil bate recorde de mortes em acidentes no trabalho
Especialistas questionam se apenas comprovar a realização dos treinamentos é suficiente para reduzir acidentes e defendem avaliar seus efeitos no aprendizado e no comportamento dos trabalhadores.
O Brasil registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes em 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Os dois números estão entre os mais altos da série histórica, e o total de acidentes cresceu 65,8% entre 2020 e 2025. Os dados reforçam um desafio para as empresas: como saber se os treinamentos obrigatórios de saúde e segurança do trabalho (SST) estão contribuindo para prevenir riscos na prática, além de comprovar que foram realizados?
A questão está no centro de uma discussão sobre a efetividade das capacitações corporativas. Em muitas organizações, os registros permitem comprovar a realização de cursos, a carga horária e a participação dos trabalhadores. Mas esses dados, por si só, não mostram se o conteúdo foi compreendido, incorporado à rotina e transformado em comportamento seguro.
Para Juliana Bley, psicóloga, mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em comportamento seguro, é necessário ampliar a forma como o setor avalia os resultados das capacitações.
“O setor aprendeu a ser eficiente em provar que o treinamento existiu. Isso não é a mesma coisa que ensinar alguém a trabalhar com segurança”, afirma Juliana. “A pergunta que quase ninguém faz é se o trabalhador saiu dali pensando e agindo diferente. Enquanto a resposta for o certificado, a gente vai continuar medindo compliance e não competência em segurança”.
A avaliação dos resultados ganha importância em um contexto no qual as empresas precisam atender às exigências legais e, ao mesmo tempo, desenvolver uma cultura de prevenção. A comprovação documental continua sendo necessária, mas não equivale à demonstração de que o trabalhador aprendeu a reconhecer riscos e agir diante deles.
Hugo Vogel, CEO da Escudo, empresa de gestão de treinamentos em saúde e segurança do trabalho, também defende que a discussão avance para além do cumprimento formal das exigências.
“Conformidade é o piso, não o teto. O trabalhador não precisa de um certificado, ele precisa voltar para casa”, diz Hugo Vogel, CEO da Escudo. “A discussão que interessa não é quantas capacitações foram feitas, é o que sobrou delas no dia seguinte”.
Da capacitação à mudança de comportamento
Um dos desafios está na forma como o conhecimento é transmitido. Profissionais com domínio técnico sobre segurança nem sempre têm formação específica para ensinar adultos, adaptar conteúdos a diferentes públicos ou estimular a aplicação do conhecimento em situações reais de trabalho.
A andragogia, campo dedicado aos processos de aprendizagem de adultos, e a psicologia comportamental podem contribuir para tornar as capacitações mais conectadas à realidade dos trabalhadores. A proposta é ir além da transmissão de informações e considerar fatores que influenciam a compreensão, a tomada de decisão e a adoção de práticas seguras no dia a dia.
Essa discussão também ganha relevância com as mudanças na gestão de saúde e segurança ocupacional. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais, amplia a atenção das empresas para aspectos que vão além dos riscos físicos e operacionais.
Nesse contexto, avaliar a efetividade das capacitações exige olhar para o processo de aprendizagem e para sua aplicação no ambiente de trabalho. A participação em um curso é um indicador de execução; entender o que foi aprendido e como esse conhecimento é utilizado demanda acompanhamento e critérios de avaliação adequados.
Formação de instrutores como parte da resposta
A discussão sobre a efetividade dos treinamentos motivou a união entre a Escudo e Juliana Bley em uma parceria com investimento superior a R$ 500 mil, que prevê seis novos produtos até 2027. A primeira iniciativa é uma formação para instrutores de segurança do trabalho, que combina andragogia e psicologia comportamental para aprimorar o processo de aprendizagem. A parceria prevê ainda programas sobre Comportamento Seguro e Liderança Cuidadora.



