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O custo da segurança começa na especificação da máquina

Como requisitos técnicos, apreciação de riscos e critérios de aceitação ajudam a reduzir incertezas, retrabalho e custos de adequação na aquisição de máquinas industriais

Por JP Bernardes, Global Knowledge Manager na tec.nicum

A aquisição de uma máquina industrial envolve decisões que vão além da definição do equipamento e de seu preço de compra. Capacidade produtiva, desempenho, prazo de entrega, integração com o processo e condições de implantação normalmente fazem parte dessa análise. Os requisitos de segurança também precisam estar presentes desde esse momento, porque decisões tomadas nas primeiras etapas do projeto influenciam aquilo que será necessário para colocar o equipamento em operação.

Esse ponto ganha relevância em um mercado globalizado. Uma máquina pode ser projetada e fabricada sob requisitos diferentes daqueles aplicáveis no local em que será instalada. No Brasil, a NR-12 estabelece requisitos relacionados à segurança no trabalho em máquinas e equipamentos. Em outros mercados, existem estruturas regulatórias próprias, complementadas por normas técnicas nacionais e internacionais. Empresas multinacionais podem ainda estabelecer requisitos corporativos adicionais para suas operações.

Por isso, a segurança não deve ser avaliada apenas quando o equipamento chega à fábrica. Uma especificação de requisitos de segurança de máquinas (Machine Safety Requirements Specification), integrada à especificação técnica de compra, permite estabelecer previamente aspectos relacionados aos limites de utilização, tarefas previstas durante o ciclo de vida, formas de acesso, medidas de redução de risco e evidências técnicas esperadas no fornecimento.

Essa definição deve considerar não apenas a produção, mas também situações como limpeza, setup, retirada de materiais, manutenção e solução de falhas. Quando a redução de risco depende de sistemas de comando relacionados à segurança, a especificação precisa avançar além da indicação de componentes ou dispositivos. É necessário definir as funções de segurança esperadas, as condições que as iniciam, o estado seguro pretendido, os modos de operação abrangidos e os critérios de desempenho e validação aplicáveis. Sem essa base, fornecedor e usuário podem interpretar de forma diferente aquilo que deverá ser projetado, implementado e verificado.

A apreciação de riscos de projeto, ou Design Risk Assessment (DRA), complementa esse processo. Baseada em metodologias como a ISO 12100, ela permite identificar perigos e avaliar os riscos durante o desenvolvimento da máquina, quando determinadas decisões construtivas ainda podem ser incorporadas ao projeto.

Há uma razão prática para essa antecipação. Conforme o projeto avança da especificação para fabricação, instalação e comissionamento, a capacidade de modificar determinadas soluções tende a diminuir, enquanto as interferências sobre outras etapas podem aumentar. Uma necessidade identificada durante o desenvolvimento pode ser incorporada à engenharia original. Identificada somente após a instalação, pode envolver alterações mecânicas ou elétricas, revisão de software, novos componentes, testes adicionais ou mudanças no planejamento de partida.

Da especificação à aceitação

Definir requisitos antecipadamente não elimina a necessidade de verificar aquilo que efetivamente foi construído. Cada etapa responde a uma questão diferente: a especificação estabelece o que deverá ser fornecido; a apreciação de riscos de projeto identifica quais perigos existem e como os riscos serão reduzidos; o Safety-Related Factory Acceptance Test (SR-FAT) verifica quais requisitos e evidências de segurança já podem ser avaliados antes da expedição; e o Safety-Related Site Acceptance Test (SR-SAT) permite confirmar aquilo que depende da instalação, da integração e das condições reais de utilização. A validação, por sua vez, produz evidências de que as medidas e funções de segurança implementadas atendem aos requisitos estabelecidos.

Essa distinção é importante porque, no local de utilização, surgem interfaces com outros equipamentos, sistemas de controle, pontos reais de acesso e condições de intervenção que precisam ser consideradas. Em projetos que também utilizam FAT e SAT para a aceitação geral do equipamento, SR-FAT e SR-SAT identificam especificamente o escopo de aceitação relacionado à segurança.

SR-FAT e SR-SAT, entretanto, não substituem a apreciação de riscos, a verificação do projeto, a validação das funções de segurança ou as obrigações formais de conformidade aplicáveis. Seu conteúdo deve ser definido conforme o escopo, os requisitos e as evidências necessárias para cada fornecimento.

Essa estrutura também permite analisar propostas comerciais sobre uma base técnica mais consistente. Dois fornecedores podem apresentar soluções aparentemente equivalentes, mas com diferenças de escopo relacionadas à engenharia, validação, documentação ou requisitos de segurança. Quando esses elementos são definidos previamente, a decisão de aquisição pode considerar não apenas o valor inicial do equipamento, mas aquilo que efetivamente está incluído no fornecimento e será necessário para sua implantação.

Aquisição segura, portanto, não significa acrescentar uma etapa de segurança ao processo de compra, nem pressupõe que toda máquina possa ser adquirida já plenamente adequada às condições finais de utilização. Significa antecipar requisitos, conhecer os limites do fornecimento e estabelecer quais responsabilidades, verificações e eventuais adequações serão necessárias até a entrada do equipamento em operação.

Requisitos de segurança definidos, riscos de projeto avaliados, conceito de segurança aprovado, SR-FAT aceito, SR-SAT concluído e evidências de validação disponíveis estabelecem uma linha de rastreabilidade entre aquilo que foi especificado e aquilo que efetivamente será colocado em operação. É essa continuidade que permite incorporar a segurança à qualidade técnica da decisão de aquisição, considerando desde o início o que precisa ser fornecido, verificado e eventualmente adequado às condições reais de utilização.

Sobre o tec.nicum

O tec.nicum é a divisão global de serviços e soluções do Grupo Schmersal, especializada em segurança de máquinas, proteção industrial e segurança no trabalho. Ao combinar conhecimento especializado, engenharia e tecnologia, o tec.nicum transforma desafios industriais em soluções que aumentam a segurança e impulsionam a eficiência operacional.

Seu portfólio está estruturado em seis pilares: academy (treinamentos), consultoria, engenharia, integração, digitalização e outsourcing. Essa estrutura permite atender desde demandas específicas até projetos complexos de transformação industrial, combinando conhecimento técnico, engenharia e tecnologia para desenvolver soluções alinhadas às necessidades de cada operação.

Com atuação em mais de 20 países, o tec.nicum apoia empresas de todos os tamanhos ao longo de todo o ciclo de vida de máquinas e processos, contribuindo para a conformidade regulatória, a redução de riscos, o aumento da eficiência operacional e a construção de ambientes de trabalho mais seguros, produtivos e sustentáveis.

 

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