Número de acidentes não basta para medir riscos no trabalho, alerta Marcos Martins Advogados
Análise isolada do número de ocorrências pode mascarar problemas estruturais e comprometer decisões sobre prevenção, governança e gestão de pessoas
São Paulo, agosto de 2026 — Contabilizar acidentes de trabalho não é suficiente para orientar a prevenção e garantir segurança aos funcionários. Na avaliação do advogado trabalhista Alan Dantas, do Marcos Martins Advogados, companhias que limitam a gestão de saúde e segurança ocupacional aos indicadores mais tradicionais correm o risco de deixar passar falhas recorrentes, direcionar investimentos de forma inadequada e agir apenas depois que o problema acontece.
O especialista defende que a prevenção seja conduzida com base em uma leitura mais ampla dos dados, considerando, além da quantidade de acidentes, fatores como gravidade, recorrência, dias de afastamento, doenças ocupacionais, acidentes de trajeto, “quase acidentes” e a efetividade das medidas corretivas implementadas.
“O número de acidentes é um ponto de partida, não um diagnóstico. Uma empresa pode registrar poucas ocorrências e, ainda assim, conviver com riscos graves, já outra pode apresentar um volume maior de casos leves, concentrados em uma atividade específica. Sem interpretar o contexto, o indicador perde utilidade para quem efetivamente precisa tomar decisões”, explica Dantas
A discussão ganha relevância em um momento de maior atenção à segurança no trabalho. Estudo recente do Ministério do Trabalho e Emprego, que analisou os registros entre 2016 e 2025, mostra que o Brasil contabilizou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes em 2025, o maior valor da série histórica. Ao mesmo tempo, a taxa de incidência apresentou queda ao longo da década, o que também reflete o crescimento do emprego formal.
Outro aspecto que chama atenção é a diferença de exposição entre os setores econômicos. Hospitais e serviços de pronto atendimento concentraram quase 633 mil registros no período analisado, enquanto o transporte rodoviário de cargas liderou o número de mortes. Entre as ocupações, técnicos de enfermagem registraram o maior volume de ocorrências, já motoristas de caminhão concentraram mais de quatro mil óbitos em dez anos.
Esses recortes, segundo o especialista, evidenciam por que não faz sentido adotar um modelo padronizado de prevenção.
“Cada atividade apresenta riscos próprios. Uma indústria, uma transportadora, um hospital ou uma empresa de tecnologia convivem com realidades completamente distintas, e os indicadores precisam acompanhar essa complexidade. Quando a organização utiliza métricas genéricas, perde a capacidade de enxergar onde estão seus principais pontos de vulnerabilidade”, comenta o advogado trabalhista.
O mesmo raciocínio vale para a investigação dessas ocorrências. Na visão de Dantas, atribuir um episódio exclusivamente ao ato inseguro do trabalhador costuma simplificar um problema que envolve fatores como organização do trabalho, treinamento, manutenção, comunicação, supervisão, dimensionamento de equipes e gestão de terceiros.
Essa leitura também depende da integração entre diferentes áreas da organização. Informações produzidas por Recursos Humanos, Saúde Ocupacional, Operações, Compliance, Segurança do Trabalho e Jurídico raramente oferecem respostas completas quando avaliadas de forma isolada, porém, quando analisadas em conjunto, permitem identificar padrões, antecipar riscos e definir prioridades com maior precisão.
O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) também precisa acompanhar essa dinâmica. O documento deve refletir a realidade da operação e ser revisado sempre que ocorrências, doenças ocupacionais ou mudanças nos processos indicarem novos fatores de risco.
“O maior erro é tratar a prevenção como um conjunto de obrigações formais. Organizações que conhecem seus riscos conseguem direcionar melhor os recursos, reduzir passivos e construir ambientes de trabalho mais seguros. Em um cenário de avanço da agenda regulatória sobre saúde e segurança no trabalho e de maior cobrança por boas práticas de governança, essa capacidade se torna um diferencial de gestão, fortalece a tomada de decisão e contribui para a sustentabilidade do negócio”, conclui Dantas.



