O que os acidentes recentes em grandes shows revelam sobre a gestão de risco nos palcos
Casos envolvendo Pocah, Amado Batista, Fábio Porchat e a montagem do palco do show de Shakira trouxeram novamente ao debate um trabalho quase invisível ao público, onde engenharia, cenografia e decisões tomadas em minutos sustentam espetáculos para milhares de pessoas
Quando um grande show termina, o público leva na memória o artista, os efeitos especiais e a grandiosidade do palco. Quase ninguém pensa na estrutura que sustentou toneladas de equipamentos e milhares de pessoas. Em um momento de expansão do setor de eventos, essa operação se torna cada vez mais complexa. Segundo o Radar Econômico da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), o segmento movimentou R$ 25,3 bilhões apenas no primeiro bimestre de 2026, o maior resultado da série histórica iniciada em 2019.
Nos últimos meses, porém, uma sequência de acidentes voltou a direcionar os holofotes para essas estruturas. Em julho, uma passarela lateral cedeu durante um show da cantora Pocah, em Contagem (MG). Antes disso, parte da estrutura do palco montado para a apresentação de Amado Batista, em Itapetinga (BA), desabou momentos antes da abertura dos portões. Em maio, uma estrutura de iluminação caiu no palco do Teatro Gazeta, em São Paulo, pouco antes do espetáculo de Fábio Porchat. Já em abril, um trabalhador morreu durante a montagem do palco do show de Shakira, em Copacabana (RJ). Embora os episódios tenham causas distintas e dependam das investigações oficiais, todos despertaram uma mesma discussão: como grandes estruturas são planejadas para reduzir riscos?
Para o cenógrafo Mateus Olímpio, especialista em estruturas cenográficas para grandes eventos, a resposta começa muito antes da montagem. “Quando o público chega, tudo parece pronto. Mas aquele palco passou por projeto estrutural, definição de cargas, logística e análises técnicas. A montagem é justamente o momento em que todo esse planejamento é colocado à prova”.
Uma das situações que melhor exemplificam essa realidade aconteceu durante a montagem de um palco de aproximadamente 95 metros de largura por 25 metros de altura, desenvolvido para um dos maiores eventos universitários do país, em Uberlândia (MG).
A estrutura principal alcançava 19 metros, enquanto a cenografia exigia outros seis metros. A solução foi criar uma estrutura metálica complementar. Quando a montagem começou, porém, a intensidade do vento obrigou a equipe a rever parte da execução. “Percebemos que o vento exigiria um reforço ainda maior. Tivemos que redimensionar parte da estrutura para garantir a estabilidade do palco”.
Segundo Mateus, é justamente essa capacidade de adaptação que diferencia um projeto bem executado. “Cada local apresenta uma realidade diferente. Vento, terreno, acessos e logística interferem diretamente na montagem. O projeto precisa estar preparado para responder a essas variáveis”.
Além da cenografia, um palco integra estruturas metálicas, iluminação, painéis de LED, equipamentos de áudio e diversos pontos de sustentação. Qualquer alteração durante a montagem exige uma nova avaliação técnica para preservar o equilíbrio de todo o conjunto.
Para o advogado e contador Felipe Oliveira, os acidentes recentes mostram que gestão de risco também é uma obrigação legal. “Sempre que ocorre um acidente, as autoridades analisam todo o processo para verificar se as normas técnicas foram cumpridas. Dependendo das conclusões, organizadores, empresas responsáveis pela montagem e profissionais técnicos podem responder nas esferas civil, administrativa e até criminal. As exigências legais existem justamente para reduzir riscos e preservar vidas”.
Para Mateus, o sucesso de uma grande montagem é medido de uma forma simples. “O público compra ingresso para assistir ao artista. Quando ninguém precisa pensar na estrutura que sustenta aquele espetáculo, significa que ela cumpriu exatamente o papel para o qual foi projetada”.



