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O som de casa: a importância dos sons das cidades e a preservação do patrimônio imaterial

Por Camila Vianna Brambila Kaiser

Imagem ilustrativa/Unsplash
Foto de Matheus Oliveira na Unsplash

A memória é curiosa. Basta ouvir um som por alguns segundos para sermos transportados para outro lugar, outra época, ou até para uma lembrança que acreditávamos ter esquecido.

Pode ser o sino de uma igreja, o apito de um trem, o sinal que anuncia o início das aulas ou uma sirene que fazia parte da rotina de uma cidade. Com o tempo, esses sons deixam de ser apenas sons. Eles passam a fazer parte da nossa relação com o lugar onde vivemos.

Quando pensamos em patrimônio, é natural imaginar prédios, monumentos e praças que atravessaram gerações. Mas uma cidade também é formada por aquilo que não podemos tocar. Seus costumes, suas celebrações, os sons que acompanham a vida cotidiana. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, reconhece essa dimensão. Para o órgão, o patrimônio imaterial reúne práticas, saberes e formas de expressão transmitidas entre gerações, que sustentam o sentimento de identidade de uma comunidade.

Minas Gerais tem um dos exemplos mais claros disso. Em 2009, o Iphan registrou o Toque dos Sinos e o Ofício de Sineiro como patrimônio cultural do Brasil, a partir de um levantamento feito em nove cidades mineiras, entre elas São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Sabará e Tiradentes. Os diferentes toques usados pelos sineiros carregam significados próprios e sempre serviram para comunicar celebrações religiosas, casamentos, funerais e a marcação das horas, muito antes de existir qualquer sistema digital de aviso.

A urbanização modifica ruas, edifícios e formas de circulação. A tecnologia transforma hábitos e maneiras de comunicação. Alguns sons desaparecem porque deixam de cumprir uma função, outros são substituídos por sistemas mais modernos, e em boa parte dos casos essa mudança é necessária. O desafio está em separar o que ficou realmente ultrapassado daquilo que carrega uma parte da memória coletiva.

Isso importa ainda mais numa sociedade mediada por telas, onde recebemos boa parte das notificações e alertas pelo celular. Mas há informações que continuam sendo percebidas pelo ouvido, e não pela tela: um alerta de emergência, um aviso em uma escola, o toque de um sino. Elas comunicam porque fazem parte do espaço, independentemente de alguém estar olhando para um aparelho.

É aí que a automação entra. Sistemas automatizados de sinalização sonora não precisam significar o fim de uma referência sonora, eles podem ser a forma de mantê-la funcionando com a precisão e a confiabilidade que uma cidade hoje exige, sem abrir mão do som que uma comunidade reconhece como seu. O próprio Iphan, ao tratar do Toque dos Sinos em Minas Gerais, destaca que a manifestação segue presente na paisagem sonora e na memória social das cidades onde é praticada, mesmo com todas as mudanças que essas cidades atravessaram.

Os sons de uma cidade podem desaparecer silenciosamente, e novas gerações talvez cresçam sem conhecer alguns deles. Um sino que deixa de tocar, uma tradição que deixa de ser transmitida, um sistema de comunicação substituído sem que sua história seja registrada. Isolados, parecem detalhes pequenos, mas com o tempo mudam a forma como reconhecemos e lembramos de um lugar. Por isso vale pensar, desde já, em quais dessas referências sonoras merecem continuar fazendo parte das cidades onde vivemos.

 

*Camila Vianna Brambila Kaiser é sócia da Beatek Indústria e Comércio de Eletroeletrônicos Ltda., formada em administração de empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atua nas áreas de gestão empresarial, estratégia, desenvolvimento de negócios, licitações públicas, relacionamento institucional e expansão comercial, contribuindo para a consolidação da Beatek como referência nacional em tecnologia para sistemas de sinalização sonora e sinos e relógios.

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