Efeito bets? Treinamentos de letramento financeiro entram no radar da educação corporativa
Com bilhões de reais comprometidos em apostas e reflexos na vida financeira dos brasileiros, especialistas destacam o letramento financeiro como ferramenta de prevenção e conscientização
O avanço das apostas online no Brasil ampliou o debate sobre o endividamento e os hábitos financeiros dos brasileiros. Em 2026, o tema ganhou relevância diante dos impactos das bets sobre o orçamento das famílias e da decisão do governo federal de proibir a atividade no país. Nesse cenário, especialistas em educação financeira destacam a importância de ampliar o acesso ao conhecimento sobre planejamento, consumo consciente e administração dos recursos pessoais, competências que também podem ser desenvolvidas por meio de iniciativas de aprendizagem e educação corporativa.
A dimensão do problema aparece nos indicadores nacionais. Segundo levantamento divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em apostas em 2025. Já uma pesquisa do Sebrae, divulgada em outubro de 2026, identificou que 40% dos pequenos empresários que possuem funcionários perceberam impactos das apostas em suas equipes, incluindo endividamento, pedidos de adiantamento salarial, queda de produtividade e apostas durante o expediente.
Os reflexos também aparecem nos afastamentos profissionais. Um estudo dos ministérios do Trabalho e da Previdência apontou que o número de afastamentos temporários relacionados à ludopatia associada às apostas esportivas passou de 67, em 2023, para 363, em 2025, crescimento de 441%. Embora os dados não permitam estabelecer uma relação direta entre todos os problemas profissionais e as apostas, eles mostram como os efeitos do comportamento compulsivo podem ultrapassar a esfera financeira e atingir diferentes aspectos da vida cotidiana.
Para Eduardo Mitelman, CEO da DNA Educação, empresa especializada em cursos de educação corporativa, o cenário já tem ampliado a procura de empresas por conteúdos de letramento financeiro.
“O tema financeiro está entrando no radar de quem desenha programas de aprendizagem nos RHs, porque as pessoas querem entender melhor o que acontece com o próprio dinheiro, e isso gera procura por conteúdos em formatos mais acessíveis. Quando o letramento financeiro entra numa trilha de desenvolvimento, ele chega ao colaborador em doses curtas, com linguagem simples e exemplos do cotidiano, o que facilita reconhecer riscos, planejar o orçamento e tomar decisões com mais segurança. Esse conhecimento pertence à pessoa e a acompanha em qualquer fase da vida, dentro e fora do trabalho”, analisa Mitelman.
Proibição das bets não encerra o desafio da educação financeira
Em setembro de 2026, o governo federal anunciou uma medida provisória que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional. A decisão determinou o encerramento das operações das plataformas e estabeleceu mecanismos para a devolução de valores aos apostadores.
Apesar da mudança regulatória, o debate sobre os efeitos das apostas permanece. A possibilidade de questionamentos judiciais, as discussões sobre o futuro da legislação e os riscos de migração para plataformas ilegais mantêm o tema em evidência. Ainda que o cenário regulatório possa sofrer alterações em 2027, especialistas destacam que a conscientização sobre riscos financeiros continua relevante, independentemente da permanência ou da suspensão das atividades.
Essas competências podem ser desenvolvidas em diferentes espaços de aprendizagem, incluindo iniciativas educacionais, treinamentos, workshops e programas de desenvolvimento profissional. No ambiente corporativo, a educação financeira pode integrar conteúdos voltados à ampliação de conhecimentos e habilidades para a vida, sem que isso represente qualquer responsabilidade das organizações sobre as escolhas financeiras individuais dos trabalhadores.
Para a DNA Educação, a principal contribuição do letramento financeiro está em ampliar o acesso à informação e estimular a autonomia, permitindo que cada pessoa desenvolva conhecimentos para lidar com situações que envolvem o uso do dinheiro.
“Mesmo com as mudanças na legislação, os desafios relacionados ao endividamento continuam presentes na medida que temos um cenários de juros altos, por exemplo. A educação financeira pode ajudar as pessoas a compreender melhor o orçamento, avaliar riscos e planejar suas decisões. E isso inclusive as ajuda em competência de gestão financeira das próprias empresas. Não se trata apenas de ensinar a organizar uma planilha de gastos, mas de desenvolver pensamento crítico e consciência sobre escolhas que podem comprometer a renda. Esse conhecimento é importante para a vida pessoal e pode ser trabalhado em diferentes contextos de aprendizagem”, afirma Eduardo.
A discussão também acompanha uma transformação mais ampla na educação corporativa, que passa a considerar competências comportamentais, bem-estar e habilidades para a vida como parte do desenvolvimento profissional. Nesse cenário, a educação financeira ganha espaço não apenas diante dos efeitos das apostas, mas como um conhecimento relevante para a autonomia e a organização financeira dos indivíduos.
Para Gui Casagrande, mestre em Administração com MBA em Economia Comportamental e Finanças e fundador da Guiagrana, plataforma de educação financeira comportamental voltada a empresas e parceira da DNA Educação, o erro mais comum é tratar as bets como um problema de falta de informação.
“Ninguém aposta porque não sabe que a casa ganha. As pessoas sabem. O que a aposta explora é o mesmo mecanismo que faz a gente conferir o celular a cada dois minutos: recompensa imprevisível, resposta imediata e a sensação de que a próxima vez compensa a anterior. Por isso, a educação financeira que funciona nesse cenário não é a que ensina a montar planilha, é a que ajuda a pessoa a reconhecer os próprios gatilhos, criar atrito antes da decisão e ter um plano para o dinheiro antes de ele chegar na conta. Quando o salário já tem destino, sobra menos espaço para o impulso.”
O avanço das apostas reforça, portanto, uma discussão que vai além da regulamentação do setor. A ampliação do acesso à educação financeira e à informação sobre os riscos do endividamento pode contribuir para escolhas mais conscientes, ao mesmo tempo em que situações de dependência relacionadas aos jogos exigem atenção e acompanhamento especializado.
Sobre a DNA Educação
A DNA Educação é uma consultoria de educação corporativa que desenha programas de aprendizagem para transformar indicadores de negócio. A empresa une diagnóstico estratégico, produção audiovisual e inteligência artificial em experiências presenciais, digitais e híbridas para grandes empresas. Mais informações: https://dnaeducacao.com/



