O custo da vulnerabilidade no setor elétrico
Com inteligência artificial, radares e sensores inteligentes, empresas já conseguem reduzir consideravelmente danos por invasões cibernéticas ou patrimoniais, mas desafios no campo regulatório ainda persistem
Por Bruno Carvalho
A segurança das infraestruturas de energia no Brasil evoluiu bastante nos últimos anos, mas ainda está longe do nível de maturidade necessário para acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas e das ameaças atuais. Há uma longa estrada a ser percorrida, principalmente quando falamos de integração entre segurança patrimonial, cibersegurança e continuidade operacional.
Há uma regulação para o setor. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estabelece regras importantes relacionadas à confiabilidade e à continuidade do fornecimento, e a pauta da segurança cibernética ganhou maior relevância nos últimos anos. No entanto, embora essas normas existam há mais tempo, não vejo uma eficiência suficiente para embarcar todas as tecnologias que já estão disponíveis no mercado. A velocidade da inovação é muito maior do que a capacidade de atualização regulatória.
Quando tratamos de energia, o principal objetivo é garantir a continuidade dos serviços. Se uma operação para, o impacto extrapola os limites da concessionária. Uma cidade pode sofrer consequências diretas, afetando hospitais, telecomunicações, indústrias, comércio e a rotina da população. É uma infraestrutura crítica, que precisa ser pensada sempre sob a ótica de não interromper o abastecimento.
No passado, observávamos muitas ocorrências relacionadas à invasão de perímetros em subestações e outras instalações do sistema elétrico. Isso gerava passivos financeiros elevados, prejuízos operacionais e danos em toda a cadeia produtiva. Hoje, a tecnologia passou a exercer um papel fundamental para mitigar esses riscos.
Para ilustrar o que estou falando: em projetos desenvolvidos recentemente pela Avantia, foi possível alcançar uma redução superior a 70% nos furtos em estações de energia elétrica. Ao mesmo tempo, houve uma diminuição próxima de 40% na necessidade de estruturas tradicionais de segurança patrimonial, justamente porque os sistemas se tornaram mais assertivos e eficientes.
As subestações normalmente ocupam áreas extensas, o que dificulta a vigilância convencional. Por isso, radares inteligentes passaram a ser aliados importantes. Eles conseguem identificar a aproximação de pessoas ou veículos em tempo real, independentemente das condições de luminosidade. Em complemento, câmeras térmicas e equipamentos dotados de recursos analíticos permitem aumentar significativamente a capacidade de monitoramento.
A inteligência artificial chega agora como uma nova camada de proteção. Ela possibilita interpretar imagens, diferenciar comportamentos suspeitos e reduzir falsos alarmes, direcionando as equipes apenas para situações efetivamente relevantes. Isso torna a operação mais eficiente e menos dependente de monitoramento exclusivamente humano.
Outro recurso que considero bastante promissor são os sensores de vibração instalados abaixo da superfície do solo. Trata-se de uma tecnologia israelense que começou a ganhar espaço há cerca de dois anos no Brasil. Enterrados aproximadamente a 60 centímetros de profundidade, esses sensores conseguem captar vibrações provocadas pela movimentação de pessoas ou veículos próximos às estruturas protegidas. Em linhas de transmissão, que apresentam pontos de vulnerabilidade devido à extensão territorial e à presença de torres metálicas em áreas remotas, essa solução pode representar um diferencial importante.
Também é preciso ampliar a discussão sobre cibersegurança. Os ataques digitais são hoje uma das principais ameaças às infraestruturas críticas em todo o mundo. Além de objetivos financeiros, existem riscos relacionados à espionagem industrial, ao acesso indevido a informações estratégicas e até mesmo à sabotagem de operações essenciais. No setor elétrico, qualquer incidente dessa natureza pode comprometer a continuidade do fornecimento e provocar impactos expressivos para a sociedade.
O setor elétrico brasileiro avançou nos últimos anos, mas ainda precisa evoluir em termos regulatórios, ampliar investimentos e acelerar a adoção de soluções inovadoras. Segurança deixou de ser apenas uma atividade patrimonial. Hoje, ela é um elemento estratégico para assegurar a continuidade de serviços essenciais e proteger um dos ativos mais importantes para o desenvolvimento econômico e social do país: a energia.
Bruno Carvalho é Diretor Comercial do Setor Público e Elétrico da Avantia – Tecnologia e Segurança
