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Presídios inteligentes: proteção para as pessoas, dentro e fora dos muros

Por Elton Borgonovo, vice-presidente na Motorola Solutions para a região da América Latina e do Caribe

A América Latina atravessa uma crise penitenciária sem precedentes. Segundo dados da Nueva Sociedad, a taxa de encarceramento da região cresceu 120% desde o ano 2000, frente a 24% no restante do mundo. A infraestrutura física, porém, não conseguiu acompanhar esse ritmo, e os números oficiais revelam um sistema no limite. No Peru, prisões projetadas para 41 mil pessoas abrigam mais de 103 mil detentos (INPE). O Chile encerrou 2025 com uma superlotação de 47% (Gendarmería de Chile). Na Argentina, a população privada de liberdade ultrapassou 121 mil pessoas, e o sistema opera a 130% de sua capacidade (SNEEP). Em países como Guatemala e Bolívia, a ocupação se aproxima de 300% (CIDH).

Por trás desses números estão instituições sob pressão, com mais pessoas para abrigar, orçamentos limitados e uma influência crescente do crime organizado. Embora a deterioração do sistema penitenciário tenha um impacto direto na segurança da sociedade, em uma região onde o crime e a violência custam até 3,4% do PIB anual, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o desafio fundamental mudou. Já não basta ampliar o número de vagas. O verdadeiro desafio é administrar as unidades do século passado com ferramentas que, em muitos casos, ficaram estagnadas no tempo.

A armadilha da fragmentação tecnológica

Tradicionalmente, os governos têm respondido a esse cenário com a ampliação da infraestrutura prisional. No entanto, quando investem em tecnologia, é comum que adquiram soluções que funcionam de forma isolada. Câmeras de um fornecedor, rádios de outro, sistemas de acesso independentes, telefonia de um terceiro. Essa fragmentação gera “ilhas tecnológicas” que não dialogam entre si e cria pontos cegos críticos aproveitados pelo crime organizado, enquanto os operadores tentam administrar múltiplas telas sem integração. A soma de bons produtos não garante, por si só, uma instituição segura.

O modelo de “Presídio Conectado”

A experiência operacional atual aponta para uma abordagem diferente, em que a segurança penitenciária é tratada como um ecossistema integrado e proativo. No conceito de “Presídio Conectado”, as tecnologias trabalham de forma integrada para ampliar as capacidades operacionais.

Para ilustrar a eficácia desse ecossistema em uma situação real, podemos considerar uma tentativa de entrada de contrabando por meio de um arremesso¹ no perímetro de uma unidade penitenciária. Em um sistema fragmentado, a detecção seria tardia ou inexistente. Em um modelo integrado, câmeras com múltiplos sensores e com inteligência artificial (IA) e sensores biométricos perimetrais detectam a intrusão imediatamente. Essas informações são enviadas automaticamente para plataformas de gerenciamento, que centralizam o alerta e enviam dados táticos com coordenadas exatas aos rádios de missão crítica e às câmeras corporais dos agentes.

Ao chegarem ao local, os guardas verificam e contêm a ameaça em minutos. Paralelamente, scanners de inspeção não intrusiva com IA analisam o material apreendido, detectam entorpecentes ou armas e vinculam o resultado da inspeção diretamente ao registro digital da guarda central, sob uma rigorosa cadeia de custódia. Enquanto isso, camadas de cibersegurança protegem a infraestrutura de TI contra tentativas de sabotagem externa. Em poucos minutos, um incidente que poderia ter provocado uma crise é contido, neutralizado e documentado.

A meta é a proteção

Essa integração tecnológica otimiza a resposta tática e tem um impacto social profundo. Um centro de controle unificado, com operações documentadas, oferece transparência e protege tanto os agentes de custódia quanto as pessoas em privação de liberdade.

A América Latina precisará de anos para superar seu déficit de infraestrutura, mas não precisa esperar esse tempo para modernizar a gestão de suas unidades prisionais. A integração tecnológica está disponível hoje, pode ser implementada em meses e permite aproveitar ao máximo cada recurso. A questão para as autoridades já não é a quantidade de tecnologia a comprar, mas como integrá-la em um ecossistema capaz de transformar o tempo de cumprimento da pena em uma verdadeira oportunidade de mudança.

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¹Lançar objetos proibidos (drogas, telefones celulares, armas), envoltos em um pacote ou dentro de uma bola, do exterior para o interior de uma prisão, por cima dos muros perimetrais.

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