Como construir uma simulação de emergência sem transformar treinamento em espetáculo?
Por Emerson Rossini, Ator, Diretor e Mestre em Artes Cênicas.
No fim de agosto, participei, por meio da Inima Produções, da construção de uma simulação de emergência realizada junto à Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp). Nossa atuação envolveu a elaboração do roteiro e o fornecimento de atores e atrizes para um exercício inspirado no ataque ocorrido em Bondi, em Sydney, na Austrália.
Participaram do treinamento equipes do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, profissionais de comunicação, psicólogos e voluntários ligados à Federação. O objetivo era preparar diferentes frentes para atuar diante de uma situação crítica. E experiências como essa ajudam a reforçar uma premissa importante: uma simulação bem construída tem como foco os processos, a tomada de decisão e a análise de indicadores como tempo de resposta e ação sob pressão ou estresse. Cada elemento de encenação, como tiros de festim, atores e atrizes, moulage (maquiagem ferimentos) possuem função pedagógica clara para ativar gatilhos de estresse controlados.
Os primeiros passos para a realização de uma simulação como essa, partem das definições dos objetivos pedagógicos, das necessidades que cada grupo participante tem como parte de treinamento, para que o roteiro contemple estes objetivos. A cena produzida atua apenas como suporte. Por exemplo, se a meta for treinar a comunicação entre equipes durante uma crise, a simulação deve ser moldada para tensionar essa variável específica, sempre respeitando a maturidade técnica e emocional da equipe. Os atores e atrizes atuam com escuta ativa, atentos para não ultrapassarem os limites técnicos das equipes.
Quando o estresse ultrapassa o limite da carga cognitiva ideal (hiper-realismo), o cérebro entra em estado puro de fuga, travando a capacidade de raciocínio crítico e retém apenas memórias traumáticas, o que destrói o aprendizado. A imprevisibilidade, nestes casos, não é falta de planejamento, mas a introdução de variáveis dinâmicas em uma estrutura rigorosa.
O roteiro para Fisesp foi escrito classificando as ações em “gatilhos” provocadores de ações pontuais, objetivando respostas das equipes, inseridos propositalmente no roteiro. Em um exemplo, um personagem “plantava” a ideia de se ter um 3º terrorista, em um cenário onde só havia dois. Esse gatilho disparava um protocolo de varredura do espaço cênico pelos policiais, sendo esse um dos protocolos a serem treinados.
Uma boa simulação possui uma linha-base muito bem estruturada e introduz variáveis capazes de provocar respostas que precisam ser observadas. Durante o exercício, a própria direção de cena pode acelerar, retardar ou interromper determinados gatilhos conforme a reação das equipes. Os atores também precisam estar preparados, para isso, recebem previamente o roteiro e orientações objetivas sobre o comportamento de seus personagens. Uma vítima pode, por exemplo, estar consciente e responder a comandos, mas não conseguir caminhar. Um familiar desesperado pode repetir determinada pergunta até receber uma orientação clara e empática.
Existe também a possibilidade de se colocar “placas com sinais vitais” para que o resgate não confunda os sinais do ator com o do personagem. A maquiagem, o barulho dos tiros, a verbalização dramática do texto são elementos que ajudam a trazer veracidade para o evento simulado, como estímulo para a interpretação dos atores e atrizes tanto quanto para a pressão psicológica para as equipes treinadas.
As falhas aqui são bem-vindas, mas é imprescindível que o ambiente seja estabelecido como um laboratório de testes onde o erro é material de reflexão para prevenção de uma falha na vida real, e para tanto, a regra da privacidade na simulação também é fundamental. O que acontece na simulação fica no debriefing.
Caso aconteça algum acidente de percurso, onde haja risco real ou perigo, usamos uma palavra-chave para que todos parem o exercício. Em nossa experiência, utilizamos uma palavra completamente fora do contexto da cena: “ABACAXI”. Ao ouvi-la, todos saberiam que não se tratava mais da ficção e que o exercício deveria ser interrompido.
Devemos pensar em todos os detalhes para que nada fora do previsto aconteça. Explosões próximas, fogo descontrolado ou simulações violentas não combinadas, cenários desenhados para “testar limites” ou colocar indivíduos em situação vexatória são alguns exemplos. Outro ponto importante é sempre informar aos atores sobre os gatilhos emocionais para que não ativemos possíveis traumas pessoais recentes.
O debriefing talvez seja a parte mais importante de uma simulação em si. A reflexão sobre o aprendizado acontece, em sua maioria, nessa etapa, e para estruturá-lo podemos nos basear em alguns fatores:
- Descompressão: Expressar emoções iniciais, fora de contexto, para limpar a mente.
- Análise de Fatos: O que realmente aconteceu em relação ao que estava previsto.
- Extração de Aprendizados: O que funcionou e o que precisa mudar nos procedimentos oficiais.
Após o debriefing podemos, então, observar os desvios e gerar uma ação concreta de revisão de procedimento ou novos treinamentos para melhoria de infraestrutura. É vital ressaltar o conceito de fidelidade psicológica sobre a fidelidade física. Uma simulação não precisa de efeitos especiais hollywoodianos para ser eficiente, ela precisa engajar os processos mentais, decisórios e procedimentais corretos dos participantes. A maturidade de um plano de emergência mede-se pela capacidade da organização em aprender com os erros cometidos no ambiente controlado do treinamento.

