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El Niño coloca a construção civil em alerta: as edificações brasileiras estão preparadas para o novo cenário climático?

Especialistas afirmam que projetos arquitetônicos, normas técnicas e planejamento urbano precisam evoluir para enfrentar ondas de calor mais intensas e eventos extremos cada vez mais frequentes

Durante décadas, a construção civil brasileira projetou edifícios com base em padrões climáticos relativamente estáveis. Mas o avanço das mudanças climáticas e a atuação do El Niño, fenômeno que altera o regime de temperaturas e chuvas em diversas regiões do planeta, colocam em xeque um modelo construtivo pensado para um clima que já não existe. Em um cenário marcado por ondas de calor mais frequentes, chuvas intensas e maior pressão sobre a infraestrutura urbana, arquitetos, engenheiros e especialistas em sustentabilidade defendem que o setor precisa acelerar sua adaptação.

O desafio vai além do conforto térmico. O aumento das temperaturas já impacta custos operacionais de edifícios, amplia o consumo de energia, exige novos materiais e influencia até a competitividade das empresas brasileiras em mercados internacionais. Para especialistas, o clima deixou de ser uma variável ambiental para se tornar um fator econômico e estratégico.

Segundo Felipe Fogaça, especialista em internacionalização de negócios e no corredor Brasil-Europa, os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte da gestão financeira das empresas e devem influenciar cada vez mais as decisões relacionadas ao mercado imobiliário e à construção civil.

“O clima deixou de ser uma variável externa e virou uma linha dentro do balanço. Há dois tipos de impacto que toda empresa precisa separar. O primeiro é o risco físico: onda de calor derruba produtividade, encarece energia, interrompe cadeia de suprimentos e eleva o custo de seguros. O segundo é o risco de transição: mudança de regulação, precificação de carbono e mudança de exigência dos clientes. O erro mais comum é tratar isso como evento pontual, quando, na prática, é um custo estrutural e recorrente.”

Na avaliação do especialista, empreendimentos capazes de reduzir o consumo energético, utilizar fontes renováveis e apresentar menor pegada de carbono tendem a ganhar espaço em um mercado que já começa a exigir indicadores ambientais mais rigorosos.

“A adaptação deixa de ser custo e passa a representar posicionamento. A empresa que mede, comprova e comunica sua eficiência climática ganha preferência de compradores que hoje já exigem esse dado. Quem sair na frente captura essa vantagem antes que ela vire apenas o mínimo esperado.”

Construções ainda refletem um clima do passado

Embora o tema esteja cada vez mais presente nas discussões sobre sustentabilidade, boa parte das edificações brasileiras continua sendo desenvolvida com parâmetros técnicos elaborados para uma realidade climática diferente da atual.

Para o engenheiro civil Victor Henriques, CEO da Help Reformas e Construções, o país ainda está distante de possuir um parque imobiliário preparado para enfrentar períodos prolongados de calor extremo.

“A resposta é não. A maioria das edificações brasileiras foi projetada com base em padrões climáticos históricos que não refletem a intensidade e a frequência dos eventos extremos que observamos atualmente. Nossas normas técnicas foram estabelecidas há mais de uma década e não incorporam adequadamente os cenários de aquecimento global.”

Segundo ele, esse problema é ainda mais evidente nas habitações populares, que frequentemente utilizam materiais de baixo desempenho térmico e apresentam pouca ventilação natural.

“Construções residenciais populares apresentam elevada vulnerabilidade. Muitas utilizam materiais de baixa inércia térmica, isolamento inadequado e sistemas de ventilação passiva insuficientes. Já os edifícios comerciais dependem cada vez mais do ar-condicionado, o que aumenta significativamente o consumo de energia.”

Na visão do engenheiro, o setor precisa abandonar soluções exclusivamente mecânicas para investir em estratégias passivas de conforto ambiental.

“O setor da construção civil precisa revisar projetos, especificações de materiais e estratégias de climatização para antecipar cenários de temperaturas mais altas e períodos de calor prolongado.”

Arquitetura bioclimática deixa de ser tendência e passa a ser necessidade

Especialistas defendem que soluções já conhecidas pela arquitetura podem reduzir significativamente a temperatura interna dos edifícios sem aumentar o consumo energético.

Ventilação cruzada, isolamento térmico em coberturas, brises, fachadas protegidas da radiação solar, vidros de controle térmico, coberturas refletivas, paisagismo integrado e o correto posicionamento das edificações são algumas das estratégias capazes de melhorar o desempenho térmico dos imóveis.

Victor Henriques ressalta que a escolha dos materiais também exerce papel decisivo.

“Materiais escuros, concreto exposto sem isolamento e telhas cerâmicas acumulam calor e mantêm os ambientes aquecidos por mais tempo. Em contrapartida, coberturas metálicas com isolamento termoacústico, vidros de controle solar, materiais refletivos e isolantes térmicos reduzem significativamente a absorção de calor.”

Segundo ele, a combinação entre soluções arquitetônicas e materiais adequados produz resultados muito superiores ao simples aumento da capacidade dos equipamentos de climatização.

O desafio está além dos edifícios

A discussão sobre adaptação climática também passa pelo desenho das cidades. Ruas excessivamente asfaltadas, pouca arborização, impermeabilização do solo e elevada densidade construtiva favorecem a formação das chamadas ilhas de calor, fenômeno que pode elevar a temperatura urbana em vários graus em comparação às áreas vegetadas.

Victor Henriques afirma que o planejamento urbano precisa ser tratado como parte da estratégia climática.

“Cidades densas, com pouca vegetação e muitas superfícies impermeáveis criam ilhas de calor. O investimento em arborização urbana, pavimentos permeáveis, corredores verdes e espaços abertos melhora o conforto térmico coletivo e reduz os impactos das temperaturas extremas.”

Essa mudança de paradigma também aparece no conceito das chamadas “cidades esponja”, modelo que vem sendo adotado em países como China, Dinamarca e Singapura. A proposta consiste em substituir parte da infraestrutura tradicional por soluções baseadas na natureza, permitindo que o solo absorva, retenha e reutilize a água das chuvas.

Segundo o arquiteto Cássio Ferraz, o conceito representa uma ruptura com o modelo urbano predominante no último século.

“Na prática, é o oposto da cidade que construímos no último século. Em vez de criar um escudo de concreto e asfalto para tentar expulsar a água da chuva o mais rápido possível, a cidade esponja faz o contrário: ela abraça a água. A ideia é desenhar o espaço urbano para que ele consiga reter, infiltrar e limpar a água da chuva no próprio local onde ela cai, usando a própria natureza como infraestrutura.”

Para ele, a impermeabilização excessiva tornou as cidades mais vulneráveis aos eventos extremos.

“Quando você pavimenta uma cidade inteira, canaliza rios e elimina a vegetação, a água não tem para onde ir. Toda a chuva que cai vira escoamento superficial imediato.”

Na avaliação do arquiteto, adaptar o desenho urbano tornou-se uma necessidade diante da nova realidade climática.

“O regime de chuvas mudou, e o modelo antigo de cidade faliu diante dessa nova realidade. Não dá mais para planejar olhando para o retrovisor. Mudar o desenho urbano para o modelo esponja não é mais uma escolha estética ou ecológica, é uma questão de sobrevivência urbana.”

Bairros planejados apontam novos caminhos

Embora ainda sejam iniciativas pontuais, alguns empreendimentos brasileiros já incorporam soluções voltadas para a adaptação climática. Um exemplo é a Cidade das Águas, bairro planejado desenvolvido pelo Grupo CRH em Joinville (SC).

Segundo Danilo Conti, diretor da empresa, o projeto foi concebido para aumentar a resiliência urbana diante dos novos desafios climáticos.

“O projeto prioriza a sustentabilidade urbana por meio de infraestruturas resilientes, como telhados verdes, sistemas avançados de captação de água da chuva, prioridade absoluta ao pedestre e ciclovias, além de uma usina fotovoltaica própria para geração de energia limpa.”

Competitividade também depende da adaptação

Além dos benefícios ambientais, especialistas afirmam que edifícios energeticamente eficientes tendem a ganhar valor econômico. A crescente adoção de critérios ESG e mecanismos internacionais de precificação de carbono faz com que eficiência energética, arquitetura bioclimática e infraestrutura resiliente deixem de ser diferenciais e passem a representar ativos estratégicos.

Felipe Fogaça observa que mercados como o europeu já condicionam parte das relações comerciais ao desempenho ambiental das empresas.

“A sustentabilidade deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser uma condição de competitividade. Eficiência energética, baixo carbono e inovação hoje fazem parte da mesma conversa.”

Diante da intensificação do El Niño e das projeções de aumento na frequência dos eventos climáticos extremos, a principal discussão já não é mais se a construção civil precisará mudar, mas em que velocidade conseguirá adaptar seus projetos, suas cidades e seus modelos construtivos para uma realidade que já começou.

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