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O futuro do trabalho e do tempo de quem trabalha

Por mais de três séculos, o Brasil organizou sua economia sobre o trabalho escravizado. Foi o maior destino do tráfico transatlântico, com cerca de 4,8 milhões de africanos desembarcados aqui, e o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Seria injusto dizer que nada mudou nos 138 anos seguintes. Ainda assim, vale perguntar o que dessa herança sobrevive, em silêncio, na forma como pensamos o tempo de quem trabalha.

A linguagem dá uma pista. Ainda é comum tratar a folga como custo, o descanso como perda de produtividade e o trabalhador como despesa a conter. É uma visão utilitária, em que mede-se a pessoa pelas horas que entrega, e raramente pelo que ela poderia entregar se tivesse tempo para viver, estudar e cuidar do seu entorno.

A reforma trabalhista de 2017 mostra como esse olhar pode prevalecer sem grande resistência. Entre outras mudanças, ela tornou facultativa a contribuição sindical. A arrecadação caiu de R$ 3,6 bilhões em 2017 para cerca de R$ 500 milhões já em 2018. A taxa de sindicalização, que já vinha em queda, chegou a 8,4% em 2023. Foi a menor da série do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012 com 16,1%. O mérito do antigo imposto pode ser discutido. Mas é difícil negar que a voz organizada de quem trabalha ficou mais fraca, e que o debate público da época pouco influenciou os rumos da reforma.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 seguiu outro caminho, e é isso que torna o momento atual interessante. Ela nasceu nas redes, ganhou as ruas e levou o Congresso a reagir. A PEC foi aprovada na Câmara em maio e concluiu seu rito na noite da última quarta-feira. Em março, o Datafolha registrou 71% de apoio à redução da jornada. Em maio, quando a pergunta tratou especificamente do fim da 6×1, o apoio foi de 64%, ainda uma maioria clara. Quase metade dos brasileiros economicamente ativos trabalha seis ou sete dias por semana, e três em cada quatro acreditam que trabalhar menos melhoraria sua qualidade de vida.

Há preocupações legítimas sobre custos e adaptações, sobretudo de pequenos negócios, do comércio varejista e dos serviços, e elas merecem lugar à mesa. Mas talvez a mudança mais importante já tenha acontecido. O tempo do trabalhador deixou de ser um assunto técnico, restrito a especialistas, e passou a ser uma questão de toda a sociedade.

Seja qual for o futuro do tema, já que logo após a aprovação se passou a cogitar sua revisão a depender do resultado das urnas, o placar de 75 votos a 1 no Senado mostra que é possível convergir quando a sociedade participa da conversa. O desafio agora é não deixar que esse diálogo se encerre com a promulgação. Novas tecnologias, novas formas de produzir e novas expectativas de vida exigem que a conversa sobre o trabalho seja permanente, e não episódica e movida apenas por reformas ou por calendários eleitorais.

Para isso, é preciso reconhecer o trabalhador como interlocutor, e não apenas como custo. Empresas, sindicatos, governo e sociedade precisam de espaços estáveis de escuta, nos quais empregadores possam expor seus limites e trabalhadores possam dizer o que esperam do próprio tempo.

A pergunta que adiamos por tanto tempo: quanto vale o tempo de uma pessoa à disposição do trabalho não terá resposta única nem definitiva. Mas só será bem respondida se for feita em conjunto. Talvez seja esse o modo mais maduro de virar uma página escrita há mais de 300 anos e impedir que o passado siga se fazendo presente no futuro do trabalho do Brasil.

 

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