IA amplia pressão sobre profissionais e desafia RH a incluir novos riscos psicossociais na estratégia das empresas
Especialistas alertam que a adoção acelerada da inteligência artificial pode intensificar fatores como sobrecarga, pressão por desempenho e insegurança no trabalho, exigindo que organizações revisem suas práticas de gestão diante das exigências da NR-1
As empresas aceleraram a adoção da inteligência artificial para aumentar a produtividade, automatizar processos e tornar decisões mais ágeis. Mas um efeito dessa transformação começa a chamar a atenção de especialistas em saúde ocupacional: o impacto da tecnologia sobre a organização do trabalho e os riscos psicossociais.
A avaliação é que, quando implementada sem planejamento, a IA pode intensificar fatores como pressão por resultados, sobrecarga cognitiva, monitoramento constante e insegurança profissional, exigindo uma nova atuação das empresas diante das exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
Embora a inteligência artificial não seja, por si só, um risco psicossocial, sua adoção pode potencializar condições já reconhecidas pela NR-1, como excesso de demandas, ritmo intenso de trabalho, redução da autonomia e mudanças constantes nos processos. A norma determina que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem esses fatores para prevenir o adoecimento relacionado ao trabalho.
O alerta também é respaldado por pesquisas internacionais. Um levantamento da Society for Human Resource Management (SHRM) mostrou que profissionais que utilizam inteligência artificial diariamente apresentam níveis mais elevados de estresse e pressão por desempenho. Já o Work Trend Index 2026, da Microsoft, aponta que a rápida incorporação da IA aumentou a necessidade de aprendizagem contínua e ampliou a preocupação dos trabalhadores com a adaptação às novas competências exigidas pelo mercado. Na mesma direção, pesquisas da Gallup indicam que o estresse ocupacional permanece em níveis elevados e que a insegurança diante das transformações no trabalho tem sido um dos fatores que contribuem para esse cenário.
Os reflexos desse contexto também aparecem nos indicadores nacionais. Levantamento da Data Cajuína, elaborado com base nos Dados Abertos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), identificou 105.874 afastamentos por transtornos mentais entre janeiro e março de 2026. Apesar de representar uma redução de 3% em relação ao mesmo período de 2025, os transtornos mentais ainda responderam por 12,9% de todos os auxílios-doença concedidos no trimestre, evidenciando que o adoecimento psicológico continua sendo um desafio relevante para empresas e profissionais.
Para Marco Bussacarini, médico especialista em saúde ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, o crescimento dos afastamentos reforça que a gestão da saúde mental precisa deixar de ser baseada apenas em ações pontuais de bem-estar e passar a integrar a estratégia de Saúde e Segurança do Trabalho.
“O crescimento dos afastamentos por transtornos mentais reforça a necessidade de as empresas tratarem os riscos psicossociais de forma técnica e estruturada. No entanto, não existe uma relação automática entre implantar uma política de saúde mental e reduzir afastamentos. Para que a prevenção seja efetiva, é preciso identificar quais fatores de risco estão presentes em cada ambiente de trabalho, avaliar sua intensidade, definir medidas de controle e acompanhar continuamente os resultados.”
Segundo o executivo, a inteligência artificial pode fazer parte desse contexto sempre que alterar significativamente a forma como o trabalho é organizado. “A inteligência artificial, por si só, não representa um risco psicossocial. O desafio está na forma como ela é implementada. Se a tecnologia aumenta a pressão por resultados, acelera o ritmo das atividades, amplia o monitoramento ou exige adaptação constante sem o suporte adequado, esses fatores precisam ser avaliados dentro da gestão dos riscos psicossociais prevista na NR-1.”
Para Bussacarini, a atualização da norma representa uma mudança importante na cultura de prevenção das empresas. “É justamente essa lógica que a atualização da NR-1 propõe ao incorporar os riscos psicossociais à gestão de Saúde e Segurança do Trabalho. Mais do que cumprir uma obrigação legal, as empresas precisam desenvolver processos consistentes de avaliação, monitoramento e melhoria contínua, considerando a realidade de cada organização. Não existe uma solução única ou uma medida isolada capaz de resolver um problema tão complexo.”
Na avaliação do especialista, essa mudança amplia o papel estratégico do RH. Além de liderar a transformação digital, a área passa a ser responsável por avaliar como as novas tecnologias impactam a organização do trabalho, apoiar as lideranças na condução das mudanças e garantir que produtividade, inovação e saúde caminhem juntas.
“Quando a prevenção é baseada em diagnóstico técnico, evidências e acompanhamento permanente, a tendência é reduzir a exposição aos fatores que favorecem o adoecimento, fortalecer a cultura de segurança e promover ambientes de trabalho mais saudáveis. Além de preservar a saúde dos trabalhadores, essa abordagem também reduz os impactos operacionais e financeiros decorrentes dos afastamentos prolongados, tornando a prevenção uma estratégia mais eficiente do que atuar apenas quando o problema já está instalado.”
Com a inteligência artificial cada vez mais presente na rotina corporativa, especialistas avaliam que a gestão dos riscos psicossociais tende a se consolidar como uma das principais agendas estratégicas do RH. Mais do que atender às exigências da NR-1, incorporar essa perspectiva pode representar um diferencial para organizações que buscam combinar transformação digital, alta performance e ambientes de trabalho mais saudáveis.
Sobre Dr. Marco Aurélio Bussacarini
Graduado em Medicina pela UNICAMP e especialista em Medicina Ocupacional pela USP, Marco Aurélio Bussacarini é médico, empreendedor e especialista em administração hospitalar e gestão de empresas, com um histórico robusto tanto no setor público quanto privado. Sua carreira inclui experiências significativas como gestor de saúde no Ministério da Saúde e liderança em várias iniciativas no setor privado, incluindo a fundação e direção de cooperativas médicas e de crédito. Ele é fundador e CEO da Aventus Ocupacional.
Sobre a Aventus Ocupacional
Pioneira no segmento B2B de Saúde e Segurança do Trabalho (SST), a Aventus Ocupacional tem 25 anos de mercado. A companhia se destaca pela integração completa entre medicina ocupacional e segurança do trabalho, atendendo uma vasta gama de clientes em diversos setores como transporte, educação, alimentação, saúde e indústria.
Na vanguarda da digitalização do atendimento SST, a Aventus Ocupacional utiliza tecnologia de ponta, incluindo uma plataforma EAD para treinamentos online. Nos últimos anos, a empresa tem se destacado por sua inovação no atendimento às demandas legais e operacionais do setor de medicina ocupacional.



