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Mentalidade de riscos é diferente de gestão de riscos

Por Tulio Cerviño, CEO Latam e VP Global de Operações Industriais da TRACKFY | WAKECAP.

 

Existe uma frase muito comum nas empresas: “segurança é prioridade”. Eu prefiro dizer que segurança é um valor. Prioridades mudam conforme o cenário, as metas e os desafios do negócio. Valores, não. Eles orientam decisões, independentemente das circunstâncias.

Essa diferença de perspectiva ajuda a explicar por que algumas organizações conseguem reduzir acidentes de forma consistente, enquanto outras continuam convivendo com os mesmos problemas, mesmo investindo em treinamentos, procedimentos e equipamentos de proteção.

Na minha visão, a resposta está em algo que ainda recebe menos atenção do que deveria: a mentalidade de riscos.

Estamos acostumados a falar sobre gestão de riscos, mapas de perigos, matrizes de criticidade e planos de ação, mas nenhum desses instrumentos funciona plenamente se as pessoas não desenvolverem a capacidade de enxergar riscos antes que eles se transformem em incidentes.

É justamente essa mudança de comportamento que diferencia uma empresa que apenas cumpre normas daquela que constrói uma cultura de prevenção. A própria ISO 9001:2015 reforça esse conceito ao incorporar o pensamento baseado em risco como um dos pilares dos sistemas modernos de gestão da qualidade. A lógica é simples: não basta responder aos problemas quando eles surgem; é preciso criar organizações capazes de antecipá-los, aprender continuamente e transformar incertezas em oportunidades de melhoria.

Essa mudança faz ainda mais sentido em um cenário em que as operações se tornaram muito mais complexas.

A indústria, a construção civil, a mineração, a logística e diversos outros setores convivem diariamente com centenas de pessoas trabalhando simultaneamente, equipamentos de grande porte, fornecedores terceirizados, cronogramas apertados e ambientes que mudam constantemente. Basta uma pequena alteração na rotina para que um cenário considerado seguro passe a representar um risco elevado.

Nenhum procedimento consegue prever todas essas variáveis. Por isso, acredito que a segurança não pode depender exclusivamente de processos; ela precisa fazer parte da forma como cada profissional observa o ambiente, toma decisões e executa suas atividades.

Quando um colaborador percebe que uma rota foi bloqueada, identifica um equipamento operando fora do padrão ou comunica uma condição insegura antes que ela gere consequências, ele está colocando em prática a mentalidade de riscos. Não porque alguém mandou, mas porque essa forma de pensar já foi incorporada ao seu dia a dia.

Esse talvez seja o maior indicador de maturidade de uma cultura de segurança.

Outro ponto importante é entender que risco não significa apenas possibilidade de acidente; essa é uma visão limitada, pois toda situação de risco também revela uma oportunidade de melhoria.

Quando uma empresa identifica que determinadas atividades geram desvios recorrentes, ela pode revisar processos, reorganizar fluxos, otimizar deslocamentos, reduzir desperdícios e aumentar a produtividade. Em muitos casos, iniciativas implantadas inicialmente para fortalecer a segurança acabam trazendo ganhos relevantes de eficiência operacional.

Desse modo, segurança e produtividade deixam de competir por investimentos e passam a se fortalecer mutuamente.

Isso é especialmente importante em um momento em que a indústria busca aumentar sua competitividade. Pressão por custos, prazos menores, maior complexidade das obras e dificuldade para contratar profissionais qualificados exigem operações muito mais inteligentes.

Essa transformação também muda o papel da liderança. Durante muito tempo, acreditou-se que promover segurança era responsabilidade exclusiva do SESMT, da engenharia ou da área de qualidade, e hoje sabemos que essa visão é insuficiente.

Os líderes precisam criar ambientes em que as pessoas se sintam confortáveis para relatar situações inseguras, sugerir melhorias e interromper uma atividade quando identificarem um risco relevante. Empresas com culturas maduras deixam de procurar culpados e passam a investigar causas.

Esse ambiente de confiança é um dos maiores ativos de uma organização e, naturalmente, a tecnologia acelera esse processo.

Nos últimos anos, vimos uma verdadeira revolução na capacidade de monitorar operações em tempo real. Sensores, Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, sistemas de localização e plataformas digitais permitem acompanhar pessoas, equipamentos e ativos com um nível de precisão que era impensável há poucos anos.

Além de ampliar a visibilidade das operações e acelerar a identificação de situações críticas, essas ferramentas geram dados que ajudam os gestores a compreender padrões, corrigir falhas recorrentes e tomar decisões baseadas em evidências, e não apenas na percepção das equipes.

Mas existe um ponto que considero fundamental: a tecnologia não substitui cultura. Nenhum software é capaz de criar senso de responsabilidade, nenhum sensor faz uma equipe desenvolver consciência sobre riscos e nenhuma tecnologia, por si só, é capaz de construir um ambiente verdadeiramente seguro.

As empresas que obtêm melhores resultados são justamente aquelas que conseguem combinar pessoas, processos e tecnologia. Quando esses três elementos trabalham juntos, a prevenção deixa de ser reativa e passa a fazer parte da estratégia do negócio.

Acompanhamos diariamente operações em diferentes segmentos e percebemos que as organizações mais maduras têm uma característica em comum: elas não esperam um acidente para aprender. Utilizam dados para identificar tendências, monitoram indicadores continuamente, incentivam comportamentos seguros e transformam cada pequeno desvio em uma oportunidade de evolução.

Essa talvez seja a maior mudança que estamos vivendo. O futuro da segurança será definido menos pela quantidade de normas e mais pela capacidade das empresas de desenvolver pessoas que pensem preventivamente todos os dias. Acidentes raramente acontecem por um único fator; eles são resultado da soma de pequenas decisões, pequenas distrações e pequenos sinais que deixaram de ser percebidos.

Criar uma mentalidade de riscos significa justamente fazer o contrário: transformar cada decisão cotidiana em uma oportunidade de proteger pessoas, preservar ativos, aumentar a eficiência operacional e construir negócios mais sustentáveis.

Essa é, na minha opinião, a evolução mais importante da segurança corporativa. Ela não está apenas nos equipamentos, nos procedimentos ou nos sistemas. Está, principalmente, na forma como as pessoas aprendem a enxergar o trabalho antes mesmo que o risco apareça.

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