NR-1: “A empresa vai provar que controlou o risco psicossocial com o quê?”, questiona Rodrigo Metedieri Miguel, COO da Vitta
Na primeira Setembro Amarelo com a janela de orientação já encerrada, o cofundador e COO da Vitta apresenta dados de um ano de acompanhamento clínico com GAD-7 e PHQ-9 e aponta o abandono do tratamento como o maior ponto cego das empresas
Setembro Amarelo chega em 2026 com um elemento que não existia nas edições anteriores. Saúde mental deixou de ser pauta exclusivamente de conscientização e passou a ser item fiscalizável. Desde 26 de maio, por força da Portaria MTE nº 1.419/2024 e do cronograma fixado pela Portaria MTE nº 765/2025, os fatores de risco psicossocial integram obrigatoriamente o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) de toda empresa com empregados regidos pela CLT. Nos 90 dias seguintes, a Inspeção do Trabalho aplicou o critério de dupla visita, priorizando orientação. Esse prazo se encerrou no fim de agosto.
Os números explicam a mudança. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% sobre 2024. Transtornos ansiosos e episódios depressivos lideram as concessões, e as mulheres respondem por 63,46% dos casos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que depressão e ansiedade custem 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, o equivalente a US$ 1 trilhão em produtividade perdida.
A reação predominante das empresas tem sido documental. Aplicar um questionário, registrar o resultado no PGR, promover uma palestra em setembro e contratar uma linha de apoio psicológico. Para Rodrigo Metedieri Miguel, cofundador e COO da Vitta, essa combinação cumpre metade da norma. A NR-1 pede identificar e controlar o risco, e controlar, no caso de sofrimento psíquico, significa mudar um quadro clínico, algo que a maioria dos arranjos de benefício não consegue nem sequer medir.
A Vitta atua nas duas pontas do problema. Presta consultoria de adequação à NR-1 e opera o Hospital Digital, estrutura de cuidado com equipe própria de médicos e psicólogos, prontuário integrado e acompanhamento longitudinal. Ansiedade e depressão estão entre os episódios de cuidado mais utilizados na coordenação de saúde dos beneficiários, e os medicamentos de saúde mental ocupam a primeira posição entre as categorias mais subsidiadas pela companhia. Ao longo de um ano, entre março de 2025 e março de 2026, a empresa acompanhou a evolução clínica de pacientes em atendimento psicológico com os instrumentos GAD-7 e PHQ-9, com psicólogos de diferentes abordagens terapêuticas. Rodrigo Metedieri Miguel explica o que os dados mostraram.
A NR-1 está valendo desde maio e o prazo de dupla visita acabou de se encerrar. Na sua leitura, onde as empresas estão errando?
Na confusão entre diagnosticar e tratar. A norma tem dois verbos, identificar e controlar. O mercado se organizou muito rápido em torno do primeiro, porque é o que gera papel, e quase nada em torno do segundo. A empresa aplica um instrumento validado, descobre que tem sobrecarga em uma área e assédio percebido em outra, registra isso no PGR e para. Quando o auditor perguntar o que foi feito com aquele achado, a resposta precisa ser uma medida com efeito verificável. Palestra de gestão de estresse não é medida de controle, é transferência de responsabilidade para o trabalhador.
Mas o questionário é exigência da norma. Você está dizendo que ele não serve?
Serve, e é obrigatório. Só não é suficiente, e sobretudo não é a mesma coisa que avaliação clínica. O questionário de risco psicossocial olha para a organização do trabalho, para jornada, autonomia, relações hierárquicas e clareza de papel. Instrumento clínico olha para a pessoa que já adoeceu. São camadas diferentes e a maioria das empresas tem só a primeira. O resultado é que você sabe que existe risco na sua operação, mas não sabe quem está em sofrimento nem se alguém melhorou.
E como se mede essa segunda camada na prática?
Usamos GAD-7 e PHQ-9, dois instrumentos validados internacionalmente para ansiedade e depressão, na entrada do acompanhamento psicológico e em reavaliação ao longo do tratamento, com psicólogos de abordagens terapêuticas diferentes. Queríamos responder duas perguntas que raramente são feitas em saúde corporativa. Quanto do sofrimento efetivamente se desloca ao longo de um tratamento acompanhado, e o que muda quando existe coordenação ativa de cuidado por trás dele.
E qual foi a resposta?
A primeira coisa que apareceu foi o tamanho do problema na entrada. Cerca de 88% dos casos avaliados na escala de ansiedade e 90% na de depressão apresentavam algum nível de risco. Não é uma população de queixa leve, é gente que já está adoecida. Entre os pacientes reavaliados, aproximadamente 83% registraram melhora na escala de ansiedade, com pouco mais da metade mudando completamente de categoria de risco. Na depressão, todos os pacientes reavaliados apresentaram alguma melhora. Prefiro ser explícito sobre o que esse número não significa. Não é cura e não é ausência de recaída. É evidência de que o tratamento acompanhado move o quadro, o que já é mais do que a maior parte do mercado consegue demonstrar.
Você falou dos pacientes reavaliados. E os que não chegam até lá?
Esse é o dado que eu gostaria que saísse desta conversa, e ele não é sobre a Vitta. Abandono precoce é um dos fenômenos mais conhecidos de quem trabalha com psicoterapia. Os grandes levantamentos internacionais, que juntam centenas de estudos, mostram taxas que vão de cerca de 20% a quase 50%, dependendo do tipo de tratamento e de como se define abandono. E mostram sempre a mesma coisa, que a maior parte das desistências acontece logo no começo. Nossos números estão dentro dessa faixa e replicam o mesmo padrão. A diferença é que nós medimos. A quase totalidade dos programas corporativos de saúde mental no Brasil não mede.
Por que isso importa tanto?
Porque quando você olha quem desiste, o retrato incomoda. Entre os pacientes que interromperam o acompanhamento, o perfil predominante era o de maior gravidade, com cerca de 38% em alto risco na escala de ansiedade e 33% em quadro grave na de depressão. Ou seja, dentro do grupo que desiste, quem mais precisava do tratamento está super-representado. Isso significa que oferecer acesso não basta. Se você não tem mecanismo ativo de retenção logo nas primeiras semanas, a pessoa em maior risco pode simplesmente sair do radar e voltar a aparecer como afastamento meses depois.
Quantas empresas conseguem acompanhar isso hoje?
Muito poucas, e é exatamente aí que o benefício de saúde mental terceirizado falha. O fornecedor reporta número de sessões realizadas, porque é o que ele fatura. Ninguém reporta quem interrompeu cedo estando em quadro grave. Do ponto de vista da NR-1, essa é uma lacuna relevante. A empresa não consegue demonstrar controle de risco se não sabe o que aconteceu com o trabalhador que ela própria encaminhou.
A coordenação de cuidado ajudou nesses casos?
Ajudou onde mais importa, e os dados também me obrigaram a rever uma hipótese. Boa parte das melhoras aconteceu sem coordenação ativa. O motor principal foi o trabalho clínico dos psicólogos. Mas nos perfis mais graves a coordenação foi decisiva. Entre os casos coordenados, a transição de quadro grave e moderadamente grave para saudável na depressão ocorreu na totalidade deles, e o mesmo se repetiu na passagem de alto para baixo risco em ansiedade. A conclusão honesta é que coordenação potencializa, mas não determina. Ela é cara e deve ser dirigida a quem está pior, não distribuída uniformemente.
Vocês remuneram profissionais por desfecho?
Na rede médica, sim. Toda a rede, incluindo psiquiatria, é remunerada com base em KPIs do Quíntuplo Aim, que combina experiência do paciente, desfecho clínico, custo, equidade e saúde do profissional. Com os psicólogos, esse é um caminho que ainda estamos construindo. Hoje eles têm autonomia total para montar o plano terapêutico conforme a própria abordagem, e o acompanhamento com instrumentos validados existe justamente para reunir a evidência que uma mudança dessas exigiria. Medir desfecho em saúde mental é mais difícil do que em diabetes ou hipertensão, e não me parece responsável amarrar remuneração a um instrumento antes de entender bem o comportamento dele. Preferimos chegar lá com base sólida a chegar rápido.
Os medicamentos de saúde mental são a categoria mais subsidiada da companhia. O que esse dado diz?
Diz que a demanda é real e contínua, não sazonal. É um termômetro incomum, porque não depende de o beneficiário declarar nada em pesquisa de clima. Ele mostra o que as pessoas estão efetivamente tratando. E reforça um ponto de desenho. Subsidiar o medicamento é uma das poucas alavancas que aumentam adesão ao tratamento, que é o gargalo que os dados de abandono expuseram. Saúde mental não falha por falta de oferta, falha por falta de continuidade.
O que uma empresa deveria fazer na prática, agora que o prazo de orientação acabou?
Três coisas, nessa ordem. A primeira é fazer a avaliação de risco psicossocial de verdade, com metodologia descrita e resultado registrado, porque parágrafo genérico no PGR não sustenta fiscalização. A segunda é garantir que exista um caminho clínico real para quem for identificado, com acompanhamento e mensuração. Sem isso, o diagnóstico vira passivo, porque a empresa documentou que sabia do risco e não agiu. A terceira, e a mais negligenciada, é medir continuidade. Se em setembro a sua empresa só conseguir responder quantas palestras fez e quantas sessões foram consumidas, ela não vai conseguir demonstrar controle de risco na próxima fiscalização. E, mais importante que a fiscalização, não vai saber quem ficou pelo caminho.
Sobre o entrevistado
Rodrigo Metedieri Miguel é cofundador e COO da Vitta, healthtech criadora do primeiro hospital digital do Brasil, adquirida pela StoneCo (NASDAQ: STNE) em 26 de maio de 2020. Lidera a unidade de negócio de Hospital Digital, responsável pela arquitetura assistencial que organiza o cuidado em episódios de saúde, entre eles ansiedade e depressão, com equipe própria de médicos e psicólogos, prontuário integrado e remuneração da rede médica baseada em KPIs do Quíntuplo Aim. Sob sua operação, o serviço registra CSAT clínico de 96, resolutividade de 92% e 3% de encaminhamento a pronto-socorro físico, e foi eleito o 1º lugar entre serviços de saúde no Brasil no Prêmio Reclame Aqui 2025, com nota 9,8.



