Os cinco indicadores que podem antecipar um afastamento do trabalho meses antes do INSS
Com recorde de 4,12 milhões de afastamentos em 2025, especialista defende uso da inteligência de dados para identificar riscos antes que eles resultem em licenças médicas
O Brasil registrou cerca de 4,12 milhões de afastamentos do trabalho em 2025, o maior volume dos últimos cinco anos, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), um cenário que acende um alerta para empresas, que enfrentam impactos na produtividade, aumento de custos e desafios na gestão de pessoas. O tema ganha ainda mais relevância diante da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas o gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho como parte do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Para Michel Cabral, CEO da Vixting e especialista em saúde ocupacional, boa parte desses afastamentos é precedida por sinais que já estão presentes na rotina das organizações, mas que ainda são pouco utilizados para orientar ações preventivas. “O modelo tradicional de saúde ocupacional ainda é predominantemente reativo. As empresas costumam agir quando o colaborador já precisa ser afastado, concentrando esforços no cumprimento das exigências legais. Com as novas atualizações, será cada vez mais necessário pensar no cuidado antecipado com dados”, afirma.
É justamente essa mudança de abordagem que caracteriza a saúde ocupacional preditiva. No lugar de análises de informações isoladas, o conceito reúne dados de exames ocupacionais, ASOs, histórico médico, absenteísmo, atestados, indicadores de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) e riscos identificados no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A análise integrada dessas informações permite identificar padrões e tendências que indicam maior probabilidade de adoecimento em determinados setores, funções ou grupos de trabalhadores, possibilitando que a empresa atue antes que o problema resulte em uma licença médica.
“O objetivo não é prever qual colaborador irá adoecer, mas identificar tendências que permitam reduzir riscos. Quando os dados passam a conversar entre si, o RH deixa de administrar apenas ocorrências e passa a tomar decisões baseadas em evidências”, explica Michel Cabral.
De acordo com o especialista, cinco indicadores merecem atenção especial por parte das áreas de Recursos Humanos e Saúde e Segurança do Trabalho.
- Crescimento de atestados médicos de curta duração
O aumento de atestados de dois ou três dias em um mesmo setor pode indicar sinais iniciais de desgaste físico ou emocional antes da ocorrência de afastamentos prolongados.
- Aumento do absenteísmo por área ou função
Quando faltas passam a se concentrar em determinadas equipes, o comportamento pode indicar sobrecarga de trabalho, riscos psicossociais ou problemas organizacionais que exigem investigação.
- Exames ocupacionais vencidos ou próximos do vencimento
Além de representar risco jurídico, a falta de acompanhamento periódico reduz a capacidade da empresa de identificar precocemente alterações na saúde dos trabalhadores e compromete o planejamento preventivo.
- Evolução dos afastamentos relacionados à saúde mental
O acompanhamento dos afastamentos classificados pelos CIDs da categoria F permite identificar tendências relacionadas aos transtornos mentais, direcionando ações específicas para áreas mais vulneráveis antes que os casos se agravem.
- Informações do PGR que não chegam à tomada de decisão
O mapeamento dos riscos psicossociais previsto no Programa de Gerenciamento de Riscos precisa orientar ações práticas. Quando essas informações permanecem apenas no documento, a empresa perde a oportunidade de transformar diagnósticos em prevenção.
Além da proteção à saúde dos colaboradores, a gestão preditiva também reduz impactos financeiros. Segundo Michel Cabral, um único afastamento de aproximadamente 30 dias por transtorno mental pode representar um custo entre R$ 8 mil e R$ 15 mil, considerando salários, benefícios, perda de produtividade da equipe, necessidade de substituição do profissional e possíveis passivos trabalhistas.
“O investimento em prevenção custa uma fração do que representa um afastamento. A inteligência de dados não reduz apenas despesas, permite que a empresa cuide das pessoas antes que elas adoeçam. Esse é o principal avanço da gestão preditiva”, conclui.



